EDIÇÃO DIGITAL • POR DENTRO disponível por R$ 37,00

UMA SALA DE LEITURA

Entre Páginas

Um espaço para ler, sentir e permanecer um pouco mais.

Antes de escolher um livro, talvez você queira conhecer a escrita que o sustenta. Este é um espaço de leitura, pausa e encontro. Aqui, compartilho crônicas, pequenos textos e fragmentos do cotidiano que, por alguma razão, continuam nos acompanhando depois que a página termina.

CRÔNICA INAUGURAL · LEITURA DE 5 MINUTOS

A lista que ficou na gaveta

A primeira coisa que Laura encontrou foi um botão azul, desses que sobrevivem a peças de roupa que já desapareceram. Estava dentro de uma caixinha de costura, ao lado de duas agulhas enferrujadas, uma fita métrica que começava no número três e um papel dobrado tantas vezes que parecia menor do que era. A mudança tinha começado às oito da manhã. Às dez e vinte, ela ainda estava diante da mesma gaveta.

Havia decidido que, daquela vez, seria prática. Separaria o que prestava, doaria o que estivesse em boas condições e jogaria fora o restante. O apartamento novo era menor, os armários também, e as empresas de mudança cobravam por volume. Laura tinha cinquenta e poucos anos e uma coleção considerável de razões para não levar a vida inteira dentro de caixas. A mais recente era a separação. A mais antiga, talvez, fosse o hábito de guardar tudo como se os objetos pudessem testemunhar em sua defesa.

A filha apareceu na porta do quarto com um rolo de fita adesiva preso ao pulso. — Mãe, você está arrumando ou lembrando? Laura quis responder que as duas coisas davam quase o mesmo trabalho, mas a menina — que já tinha idade para ser chamada de mulher e ainda era menina na cabeça de Laura — continuou: — Porque a transportadora chega amanhã. E você está negociando com uma caixa de botões.

Laura riu, sem muita convicção. Abriu o papel dobrado. Era uma lista feita com sua letra antiga, inclinada para a direita. “Comprar pão, pagar a luz, buscar a saia na costureira, perguntar sobre o curso de fotografia.” O curso de fotografia não tinha sido feito. A saia ela não lembrava qual era. A conta de luz devia ter sido paga, porque, pelo que sabia, ninguém havia passado o resto daquele mês no escuro. Reconheceu a própria pressa. Até a maneira como escrevera “fotografia”, espremida na margem, parecia pedir desculpas por ocupar espaço.

— Pode jogar fora — disse a filha, apontando o papel. Laura o estendeu, mas não soltou a ponta. Não era apego à lista. Era uma espécie de susto. Durante anos, cada vez que precisara escolher entre o que era necessário e o que tinha vontade de fazer, adiara a vontade com uma educação impecável. Sempre havia roupa, conta, aniversário, consulta, almoço de família. Nada daquilo tinha sido inútil. Havia amor em muitas dessas tarefas. Só que o amor dos outros acabara ganhando todos os horários da agenda, inclusive os que ela nunca oferecera.

A filha se sentou no chão, entre duas caixas abertas. — Você ainda gosta de fotografia? Laura olhou para a janela. Do oitavo andar, via uma lavanderia, três antenas e o telhado de um prédio baixo. A pergunta era simples, o tipo de coisa que alguém deveria saber responder sobre si. — Acho que sim. — Acha? — Faz tanto tempo que não penso nisso. A filha pegou o celular, encontrou um curso perto do apartamento novo e mostrou a tela. Laura fez imediatamente o inventário dos impedimentos. O preço, o ônibus, a possibilidade de não conhecer ninguém, o receio de ser a mais velha da turma. Não mencionou o principal: a vergonha de chegar atrasada à própria vontade.

— Você não precisa se matricular agora — disse a filha, fechando o aplicativo. — Só achei que talvez quisesse olhar. Ficaram um momento em silêncio. Do corredor veio o ruído de fita adesiva sendo arrancada e o chamado impaciente do homem que desmontava a estante. O mundo não havia parado porque Laura encontrara uma lista esquecida. Havia ainda muito trabalho naquela casa. Ela recolheu o botão azul, guardou as agulhas num envelope seguro e jogou fora as fitas sem uso. Depois dobrou o papel uma última vez.

Na caixa marcada “cozinha”, entre um abridor de garrafas e um pano de prato, deixou a lista. Não sabia ainda se faria o curso. Talvez aparecesse outro compromisso, talvez ela mesma inventasse uma desculpa. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não escreveu “fotografia” na margem. No dia seguinte, antes de o caminhão chegar, abriu o aplicativo da câmera e fotografou a sala vazia. A imagem saiu torta, com metade da janela cortada e uma mancha de sol no piso. Laura gostou dela assim mesmo.

Algumas páginas terminam. Outras ficam.

UM PRESENTE PARA LEVAR

Uma carta e três pequenas pausas.

Preparei uma leitura breve para os dias em que a cabeça está cheia e sobra pouco espaço para ouvir a própria voz. São algumas páginas para ler no seu tempo e, se quiser, escrever nelas.

Baixar presente gratuito

PDF gratuito. Sem cadastro, sem compra e sem envio de dados pessoais.

SE GOSTOU DE LER, TALVEZ GOSTE DE FICAR

As histórias continuam fora das páginas.

No Instagram, compartilho bastidores da escrita, reflexões e fragmentos da vida entre um livro e outro.

Acompanhar @simoneselenko